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Incêndio de grandes proporções consome 2 milhões de litros de solventes em Itaquaquecetuba — o que queima, como se combate e as lições que já dá para tirar

Um dos maiores incêndios industriais do ano na Grande São Paulo começou na tarde de 4 de agosto numa fábrica de solventes de Itaquaquecetuba: 24 tanques, mais de 100 contêineres IBC, explosões madrugada adentro — inclusive de bueiros — e 89 bombeiros na operação. Sem vítimas até a manhã desta quarta. Além do noticiário, a leitura técnica: por que espuma, por que resfriar em vez de apagar, por que bueiro explode e onde o caso encosta em PGR, análise de risco e auxílio mútuo.

O que aconteceu — situação até a manhã desta quarta (05/08)

Tanques de solventes em chamas no incêndio da indústria química em Itaquaquecetuba
Tanques de solventes em chamas em Itaquaquecetuba: fogo em área com 24 tanques e mais de 100 IBCs. Foto: Reprodução/Metrópoles

O fogo começou por volta das 15h20 de terça-feira (04/08) na área de armazenamento da Quema Química, fabricante de solventes na Estrada do Bonsucesso, bairro Rio Abaixo, em Itaquaquecetuba, na Região Metropolitana de São Paulo. No pátio, segundo o Corpo de Bombeiros e a cobertura de imprensa: cerca de 2 milhões de litros de produtos químicos em 24 tanques de 30 mil litros, 6 tanques de 5 mil litros e mais de 100 contêineres do tipo IBC (Intermediate Bulk Container, o "contentor de mil litros" onipresente na logística química).

A resposta escalou rápido: das 8 viaturas iniciais para 18 ainda à tarde, chegando a 35 viaturas e 89 bombeiros na manhã seguinte, com água e espuma. A fábrica e as indústrias vizinhas foram evacuadas, a Prefeitura abrigou preventivamente cerca de 200 pessoas, a EDP cortou a energia da região por segurança e a Defesa Civil estadual apontou possível vazamento de componente químico. Explosões se sucederam pela madrugada — na manhã de quarta, os bombeiros davam o fogo como isolado, sem risco de propagação, com dois ou três focos remanescentes e a operação concentrada em resfriar os tanques. Não há registro de vítimas até a última atualização desta matéria.

(Números de operação em andamento mudam: os desta matéria refletem os boletins publicados até a manhã de 05/08. Atualizações da situação, da qualidade do ar e da investigação de causa devem sair ao longo dos próximos dias.)

O que está queimando: a prateleira clássica dos solventes

A lista divulgada — tolueno, hexano, álcool etílico, acetato de etila, acetato de butila e resinas, com metanol e acetona citados em parte da cobertura — é a prateleira típica de uma fábrica de solventes industriais. Todos os líquidos citados pertencem à classe de risco 3 (líquidos inflamáveis) da classificação de transporte, cada um com seu número ONU: tolueno (UN 1294), hexano (UN 1208), etanol (UN 1170), acetato de etila (UN 1173), acetato de butila (UN 1123). As fichas de emergência de cada um estão na nossa biblioteca de produtos — e na Emergência PP, que funciona sem sinal de celular.

O detalhe técnico que muda o combate: parte desses solventes (etanol, metanol, acetona) é miscível em água — e espuma comum colapsa em contato com eles. É o caso de livro-texto da espuma resistente a álcool, exatamente a distinção que registramos na linha da classe 3 do nosso quadro de ações por classe de risco: espuma RA para os miscíveis, nunca jato reto no produto, isolamento inicial de 50 metros que sobe para 300 em derramamento grande.

Por que 'resfriar e deixar queimar' é estratégia, não desistência

A operação descrita pelos bombeiros — fogo isolado, foco em resfriar os tanques vizinhos — é a doutrina correta para parque de tanques de inflamável: com combustível de sobra e suprimento de espuma finito, a prioridade passa a ser impedir que o calor irradiado leve os tanques ainda íntegros ao colapso, enquanto o inventário já em chamas queima sob controle. Apagar sem estancar e sem espuma suficiente devolve o problema em forma pior: uma poça enorme de vapor inflamável procurando fonte de ignição.

E as explosões de bueiro relatadas pela vizinhança são o capítulo que todo curso de emergência ensina e todo incidente real confirma: solvente que escapa ao dique encontra a galeria pluvial, o vapor viaja confinado e encontra ignição longe do fogo original. É por isso que os guias de emergência da classe 3 mandam, antes de qualquer coisa, impedir a entrada do produto em bueiros, galerias e cursos d'água — e é por isso que o perímetro de um incêndio industrial nunca é só a cerca da fábrica.

O caso também mostra o papel da Defesa Civil fora do combate: evacuação preventiva das indústrias vizinhas, abrigo de 200 pessoas, decisão sobre a população do entorno — e mostra na prática o valor de vizinhança industrial organizada, a lógica do PAM (Plano de Auxílio Mútuo) que defendemos aqui: numa emergência dessa escala, o recurso que chega primeiro é o do vizinho.

As perguntas que vêm depois da fumaça

Quando o fogo apagar, começa a segunda fase — e ela tem roteiro conhecido. Qualidade do ar e água: a coluna de fumaça preta e o possível vazamento apontado pela Defesa Civil pedem monitoramento da CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e atenção aos corpos d'água a jusante, o mesmo padrão do acidente da BR-153 em Goiás na semana passada, em que o produto chegou ao córrego pela galeria pluvial. Causa e prevenção: instalação fixa com esse inventário em São Paulo vive no mundo da norma CETESB P4.261 — classificação de periculosidade, EAR (Estudo de Análise de Risco) e o PGR de instalação, um dos cinco PGRs que mapeamos no guia da sigla. E a investigação dirá o que a análise de risco da planta previa — e o que ela não previa.

O acervo de registro de acidentes do portal incorporará a ocorrência pelo fluxo normal de curadoria. Esta matéria será atualizada se os boletins oficiais trouxerem mudança relevante de cenário.