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São os pesticidas que estão causando a microcefalia?

Recentemente, publiquei um artigo sobre notas de um grupo de médicos argentinos  Médicos de comunidades fumegadas, e do grupo de pesquisadores brasileiros em saúde pública Abrasco, que levantou a questão do papel potencial do larvicida Pyriproxyfen no aparente surto de bebês nascidos com defeitos congênitos envolvendo cabeças anormalmente pequenas (microcefalia).
 
O Pyriproxyfen é adicionado à água potável armazenada em recipientes abertos para interferir no desenvolvimento de mosquitos transmissores de doenças, matando ou incapacitando-os.
 
A revista The Ecologist  publicou uma versão de meu artigo que, assim como a publicação original no GMWatch, rapidamente se tornou viral, provocando mais cobertura da mídia.
 
Esta cobertura gerou, por sua vez, uma reação furiosa do que pareceu um pelotão pronto a condenar aos berros quem ousasse pensar que o relatório argentino merecia crédito.
Por vezes, no entanto, o coro condenatório tem se mostrado extraordinariamente hipócrita, tratando os médicos argentinos como se estes fossem inimigos da verdade e da precisão, distorcendo os fatos mais básicos apontados pelos aqueles médicos.
 
Defensores de pesticidas inventam teoria da conspiração 'Pesticidas provocam Zika'
 
Tomemos, por exemplo, a colunista de gastronomia do Washington Post, Tamar Haspel. Haspel tuitou: "Não, os transgênicos e pesticidas não são os culpados pelo Zika. Que tal avaliar grupos pela quantidade de vezes que espalham teorias sem base em fatos? Uma classificação de credibilidade".
 
Andrew Noymer, epidemiologista social da Universidade da Califórnia, Irvine, respondeu: "Pesticida não é o culpado pelo Zika, mas não foi definitivamente descartado como responsável por defeitos congênitos. Entendeu? Que bom”.
 
Em resposta ao desafio de Noymer, Haspel alegou que estava apenas usando Zika como abreviação no Twitter para microcefalia! Noymer respondeu: "Bem, então você está apenas mal informada".
 
Não foi apenas Haspel que pareceu acusar supostos "teóricos da conspiração" de ligar o pesticida ao Zika. O cronista de comida do site Grist Nathanael Johnson também pareceu cair na mesma armadilha com um título que atacava uma "teoria furada conectando o Zika" à indústria dos agrotóxicos.
 
Mas os médicos argentinos apenas sugeriram que o larvicida Pyriproxyfen poderia ser um fator responsável pela microcefalia. Ninguém jamais afirmou que pesticidas “causariam” o vírus Zika!
 
Outra conhecida apoiadora dos transgênicos, Julie Kelly, cometeu erro semelhante ao condenar o ator Mark Ruffalo por tuitar o que ela chamou de um artigo "ofensivamente impreciso" que culpava "pesticidas – e não mosquitos – por transmitir o vírus Zika".
 
Apenas bons amigos
 
Isso não quer dizer que uma parte da cobertura inicial da hipótese dos pesticidas não sofreu de imprecisões reais. Os médicos argentinos se equivocaram quando identificaram indevidamente a empresa que faz o larvicida como uma subsidiária da Monsanto.
 
Na verdade, a Sumitomo Chemical é uma parceira estratégica antiga da Monsanto – vêm trabalhando juntas há quase duas décadas, mas a Monsanto objetivo não é dona da empresa. Mas é um erro compreensível, dada a proximidade da cooperação das empresas tanto no Brasil como na Argentina.
 
De qualquer forma, foi um erro que eu tomei o cuidado de não cometer no meu artigo para a Ecologist, que identificou o fabricante do larvicida apenas como um parceiro estratégico da Monsanto.
 
No entanto, o erro foi aproveitado por Nathanael Johnson, por exemplo, em seu título: "A teoria furada que liga o Zika vírus à Monsanto poderia dar fôlego aos mosquitos".
 
Ironicamente, este título, como já apontamos, é mais enganoso do que o erro sobre a conexão com a Monsanto.
 
"Pesticidas podem estar envolvidos" dizem cientistas
 
O que também é enganoso no título de Johnson é o fato de sugerir que a teoria do papel dos pesticidas (em relação à microcefalia, é claro, não ao Zika) pode ser descartada como 'falsa'. A ideia de que este pesticida em particular – e/ou outros pesticidas – pode estar ligado ao problema dos defeitos congênitos no Brasil não é algo que possa simplesmente ser posto de lado ainda.
 
O Dr. David Morens, por exemplo, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do National Institutes of Health, falou  à Public Radio International sobre a teoria dos pesticidas: "É certamente plausível, mas ainda não temos informação científica suficiente para estabelecer se é correta”.
 
Assim como alguns vírus, continuou, algumas toxinas têm sido associadas à microcefalia. "Então, a teoria de que um pesticida possa ser a causa neste caso do Brasil não está totalmente descartada". Mais estudos são necessários para determinar as causas exatas, ele insistiu – e o mesmo vale para a hipótese do Zika:
 
"Posso dizer que, de tudo o que já ouvimos falar sobre os casos de microcefalia e a epidemia de Zika, e agora sobre a possível exposição aos produtos químicos ou pesticidas, são alegações e hipóteses ainda sem respaldo científico”.
 
E, embora se tenha afirmado que o Dr. Francis Collins, diretor do National Institutes of Health americano "manifestou-se contra o relatório "em esboço" dos médicos argentinos”, o que Collins realmente fez foi classificar a teoria não como 'falsa' mas como "interessante, mas ainda especulativa".
 
O biólogo Dr. Pete Myers, em editorial publicado no site de notícias Environmental Health News, salientou que a hipótese do pesticida ainda é um "esboço", como diz Collins, justamente porque falta uma investigação adequada sobre os agrotóxicos antes que possam ser comercializados:
 
"[São] hipóteses conflituosas [se o responsável pelo aumento nos casos de microcefalia é o Zika vírus ou o larvicida] com grandes consequências se estiverem certas ou erradas. Teríamos mais condições de sabê-lo se os pesticidas fossem testados de forma mais rigorosa antes de utilizados”.
 
De fato, um dos mais importantes virologistas do mundo, Dr. Leslie Lobel, recentemente disse ao Guardian que não está claro se os casos de microcefalia no Brasil estão ligados ao Zika vírus e que havia "uma forte possibilidade de haver uma relação com os pesticidas, que precisa ser investigada”.
 
A razão pela qual é preciso investigar é que, como aponta Myers, há uma relativa falta de dados independentes sobre pesticidas como o pyriproxyfen, graças a um sistema regulatório inadequado.
 
Os médicos argentinos não são os culpados por essa falha regulatória, e não deveriam ser censurados por levantar questões sobre algumas substâncias químicas.
 
Por que alguns mostram tanta avidez em rejeitar a sugestão dos médicos de antemão? Foi sugerido que aqueles que levantaram a possibilidade de uma ligação entre o Pyriproxyfen e a microcefalia teriam interesses escondidos.
 
O professor Andrew Batholomaeus, por exemplo, um dos "especialistas" citados pelo Science Media Centre da Austrália em defesa da segurança do larvicida, afirmou: "Os jornalistas deveriam pesquisar o histórico das pessoas que fazem estas alegações já que o que está por trás e as potenciais consequências para a saúde pública podem ser muito mais interessantes do que as manchetes atuais".
 
Mas não causa nenhuma surpresa que os médicos argentinos, que tiveram de lidar em primeira mão com o sofrimento causado pela “revolução” da soja transgênica na Argentina, seguida pelo abuso de agrotóxicos, estejam particularmente atentos ao papel dos pesticidas para a saúde e o desenvolvimento da América Latina – e desconfiem dos atestados de segurança da indústria de agroquímicos.
 
Os médicos afirmam que as comunidades locais estão enfrentando uma crise de saúde aguda, que inclui crianças nascendo defeitos congênitos raros. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer aponta que a liberação dos transgênicos ajudou a transformar o país no maior consumidor de agroquímicos do mundo.
 
Além disso, alguns daqueles que atacam a hipótese dos pesticidas também poderiam ser acusados de ter seus interesses.
 
Julie Kelly, por exemplo, usa o seu artigo na National Review para atacar Mark Ruffalo não apenas por chamar a atenção para a tese do larvicida, mas também por fazer campanha de conscientização sobre as mudanças climáticas e o fracking, por seu apoio às energias sustentáveis, e por ele confrontar publicamente o presidente da Monsanto sobre o impacto dos produtos da empresa:
 
"Nada disso é verdade, mas não se pode esperar que um cara que acha que os 322 milhões de americanos podem sobreviver à base de turbinas eólicas lide com a realidade. Esta semana, no entanto, a arrogância e a ignorância de Ruffalo ultrapassaram o limite. Ele tuitou um artigo ofensivamente impreciso que culpa pesticidas – e não mosquitos – pela transmissão do Zika vírus e por causar defeitos congênitos (foi retuitado mais de 500 vezes). Ruffalo apressadamente põe a culpa em uma subsidiária da Monsanto (o que também terminou se mostrando falso), que definiu como a "verdadeira causa do surto de microcefalia do Brasil." O ator foi criticado pelo New York Times e outros meios de comunicação por divulgar teorias da conspiração; depois, Ruffalo retuitou um artigo que desmonta o boato, mas se recusou a reconhecer seu erro".
 
Kelly, que é casada com um lobista da gigante de commodities agrícolas ADM, integra, assim como alguns funcionários da Monsanto, o fã clube de Kevin Folta – o cientista que ama transgênicos e bebe Roundup, e que negou ter qualquer ligação a Monsanto, mesmo tendo recebido 25 mil dólares da empresa para seu programa de comunicação em biotecnologia e tendo outras conexões conhecidas com indústria.
 
Curiosamente, Tamar Haspel não parece interessada %u20B%u20Bem explorar os laços de empresas como a Monsanto com acadêmicos de universidades públicas como Kevin Folta, além de ter sido ela mesma acusada de colaborar de forma estreita com a indústria agroquímica e de defender a Monsanto.
 
E talvez o ataque mais virulento aos médicos argentinos, publicado, previsivelmente, na Forbes, teve a contribuição de mais um fã de Folta. Kavin Senapathy também assina frequentemente artigos com Henry Miller, climatocético e defensor convicto do DDT e outros pesticidas controversos, sem falar de sua defesa da indústria do tabaco.
 
Então como ficamos?


Sim, pode-se dizer que os médicos da Argentina e algumas das pessoas que os apoiam são parciais mas, como vimos, a acusação também vale para alguns daqueles prontos a desmerecer suas inquietaçoes.
 
A conexão com Monsanto pode ter sido acentuada de forma exagerada pelos médicos, assim como pelas agências de notícias, mas não foi inventada – a Sumitomo Chemical é de fato um parceiro estratégico antigo da Monsanto.
 
Também houve um ataque descabido àqueles que chamaram a atenção para as preocupações dos pesquisadores brasileiros em saúde pública sobre o Pyriproxyfen e outros produtos químicos.
 
Como constatou um dos virologistas mais importantes do mundo, o que há é a necessidade de levar a sério e investigar a fundo a hipótese de que os pesticidas podem estar envolvidos no surto de microcefalia.

(Fonte: Carta Maior - 06/03/2016)

 
 
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